"A longa lista de "isso não tolero" é um passaporte para a solidão. As pessoas não dão chance para os diferentes, para os que não tem o mesmo nível cultural ou o mesmo padrão econômico."
Fiz um rápido retrospecto da minha vida amorosa — rápido mesmo, porque o elenco é pequeno — e cheguei à conclusão de que meu único fator de descarte seria a violência e a canalhice. Eu não me relacionaria com ninguém que ameaçasse minha integridade física e também com ninguém que não tivesse princípios éticos. Fora isso, não me importo que o candidato a príncipe não goste de Tom Jobim ou que seja baixinho, caolho e manque de uma perna, desde que tenha o meu “fator de exigência”, que é único, subjetivo e não vou revelar qual é.
Esta história de “fator de descarte” explica a existência de tantos desencontros amorosos, de tanta gente continuar comendo mosca quando poderia estar vivendo uma relação, no mínimo, surpreendente. A longa lista de “isso não tolero” é praticamente um passaporte para a solidão. As pessoas não dão chance para os diferentes, para os que não têm o mesmo nível cultural ou o mesmo padrão econômico. Desejam alguém que pense igual, se comporte igual, tenha os mesmos gostos, o mesmo tipo de amigos, preferências idênticas. No entanto, quem garante que um fã de Tom Jobim não possa ser um buldogue no convívio diário? E quem garante que um fã do Padre Fábio de Melo não possa levar uma mulher às alturas? Hosana nas alturas!
Eu prefiro Tom Jobim a qualquer padre, pagodeiro ou sertanejo, e acredito que ter afinidades é decisivo para o sucesso de uma relação a dois, mas às vezes um prefere Paris e outro prefere acampar em Trindade, e aí, como faz?
Relacionar-se é a oportunidade suprema de invadir universos desconhecidos e extrair diversão das indiadas. Claro que há grande chance de virar um deus nos acuda, mas não se pode cultivar ideias imutáveis, tipo “jamais trocarei uma noite no Fasano por um churrasquinho de gato na periferia”.
Exagerei, né? Churrasquinho de gato na periferia, francamente. Só se o cara — ou a fulana — cumprir muito à risca seu fator de exigência. No que diz respeito ao meu, é algo subjetivo, já falei. Altamente psicológico. Pense naquilo que é imprescindível para justificar que você se envolva com outra pessoa a ponto de abrir mão da sua liberdade. Pois então: eis o seu fator de exigência. É isso que importa. De resto, invista no príncipe imperfeito e deixe para ouvir “Garota de Ipanema” em casa, Tom Jobim não vai fugir.
Fonte: Texto da Revista O Globo.
Ano 7, nº 364 de 17 de julho de 2011.











3 comentários:
Oi, tudo bom? Meu nome é Mariana, estou passando pra fazer a divulgação do meu novo blog Marih Design, ele é sobre templates para blogs, aceito encomendas e ainda disponibilizo alguns templates free, visite http://marih-design.blogspot.com/.
A-M-E-I com todas as minhas forças!!! uhauahuahuhaua
Já estou pensando em qual é o meu fator de exigência!!!
kkkkkkk...
Beijosss
Gostei do post, preciso pensar qual o meu fator rsrs
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